
Chuck Berry nasceu em St. Louis, no Missouri, no dia 18 de outubro de 1926. Foi batizado como Charles Edward Anderson. Tinha 90 anos quando morreu, em 18 de março de 2017.
A invenção do rock’n’ roll é atribuída ao momento em que Elvis Presley gravou That’s All Right, fundindo o rhythm and blues dos pretos com o country & western dos brancos.
Mas seria profundamente injusto não incluir Chuck Berry – assim como Little Richard – entre os fundadores que integraram, nos anos 1950, a primeira geração do rock’n’ roll.
Elvis Presley cantava. Little Richard compunha, cantava e tocava piano. Chuck Berry compunha, cantava e tocava guitarra. Como guitarrista, Berry foi um verdadeiro inventor.
Berry criou uma linguagem para a guitarra como instrumento crucial do rock. Criou e exerceu uma influência extraordinária sobre muitos dos grandes guitarristas surgidos depois dele.
O riff de Johnny B. Goode certamente é a principal assinatura de Chuck Berry como guitarrista. O mais curioso é que ele recriou o riff muitas vezes em outros rocks que compôs.
Vejam, por exemplo, que o riff que abre Roll Over Beethoven, que os Beatles gravaram, relê o de Johnny B. Goode. Do mesmo modo que o de Carol, que os Rolling Stones gravaram.
Johnny B. Goode está numa cena antológica de De Volta Para o Futuro. Marty, que viaja no tempo, toca Johnny B. Goode quando este ainda não existia, e fica como inventor do rock.
Johnny B. Goode está também numa cena de American Graffiti, do jovem George Lucas, e You Never Can Tell é a música que John Travolta e Uma Thurman dançam em Pulp Fiction.
Na abertura do documentário Hail! Hail! Rock’n’ Roll, John Lennon destaca os comentários sociais que há nas letras de Berry e diz que, se o rock tivesse outro nome, seria Chuck Berry.
Hail! Hail! Rock’n’ Roll, de Taylor Hackford, é um belo retrato de Chuck Berry. Em 1986, quando fez 60 anos, Berry ganhou de presente um show, um disco ao vivo e este documentário.
Keith Richards, lead guitar dos Rolling Stones e discípulo de Chuck Berry, comanda a banda que vemos no filme. A relação tensa entre eles dois mostra o quanto Berry era difícil.
Difícil e indisciplinado. Avesso à coisa bem ensaiada que Keith Richards tenta lhe oferecer. Adepto de uma maneira excessivamente improvisada e descuidada de se apresentar ao vivo.
Mas, por trás desse desleixo, havia a força do seu talento, dos seus rocks seminais, dos sons da sua guitarra. Havia a singularíssima potência do repertório autoral e da sua presença.
Chuck Berry não tinha banda. Viajava sozinho e dividia o palco com músicos das cidades onde tocava. Os cachês, pagos em espécie, ele mesmo depois depositava numa agência bancária.
Chuck Berry era louco por dinheiro. Tinha a honestidade de dizer que tudo o que fez foi para ganhar dinheiro. E todo mundo – os músicos e os ouvintes – reconhece que ele fez muito bem.
Chuck Berry não tinha banda, mas teve dois colaboradores importantes nos estúdios. O pianista Johnnie Johnson e o contrabaixista Willie Dixon, ambos, grandes músicos de blues.
Berry, na verdade, era o guitarrista do Johnnie Johnson Trio. Isso, antes da fama. Quando se aproximou do sucesso, deu um golpe e tomou o poder. O grupo virou o Chuck Berry Trio.
Berry era fundamentalmente do rock, mas gostava de compor blues. Wee Wee Hours é um dos mais populares. Berry e Eric Clapton fazem esse número no filme Hail! Hail! Rock’n’ Roll.
Come On, um rock de Chuck Berry, é o lado A do primeiro single dos Rolling Stones. Nos Beatles, George Harrison cantou Roll Over Beethoven, e John Lennon, Rock and Roll Music.
Muita gente gravou Johnny B. Goode. Elvis Presley, mais de uma vez. No show do Havaí, em 1973, ele dá o comando, “Johnny B.!”, e aí a guitarra entra com a clássica introdução.
Jimi Hendrix, o maior guitarrista de todos os tempos, também pagou seu tributo a Chuck Berry. Sua versão de Johnny B. Goode, gravada e filmada ao vivo, beira o inacreditável.
John Lennon era fã incondicional de Chuck Berry, mas plagiou o ídolo sem qualquer cerimônia. Come Together, clássico dos Beatles, é plágio desavergonhado de You Can’t Catch Me.
A despeito da amizade, Chuck ameaçou John e, num acordo, o beatle foi obrigado a gravar You Can’t Catch Me, cedendo os direitos ao autor. O registro está no álbum Rock’n’ Roll.
Gilberto Gil fez uma música em que conta, ao seu modo, a história do rock. Inspirado na Strawberry Fields Forever dos Beatles, chamou a homenagem de Chuck Berry Fields Forever.
“Rock é nosso tempo, baby/Rock’n’ roll é isso/Chuck Berry fields forever/Os quatro cavaleiros do após-calipso/O após-calipso/Rock’n’ roll, capítulo 1/Versículo 20, sículo 20, século XXI”.
No centenário do cara que fez Johnny B. Goode, ficamos, então, com o desejo expresso no título desse rock que Gilberto Gil compôs há 50 anos: que sejam eternos os campos de Chuck Berry.





